As recentes enchentes devastadoras no Rio Grande do Sul, com um saldo trágico de mais de 107 mortos e 1,4 milhão de pessoas afetadas em 417 municípios, ressoam dolorosamente com o passado combativo de nosso estado. O espírito dos Farrapos, que há quase dois séculos insurgiu-se contra uma carga tributária opressiva e um retorno insuficiente do governo imperial, parece clamar dos anais da história para nos alertar novamente sobre as injustiças do pacto federativo atual.
O Rio Grande do Sul, hoje, enfrenta um dilema que nossos antepassados rejeitariam com veemência. Enviamos R$ 57,4 bilhões em tributos para a União e recebemos de volta uma fração, R$ 13,3 bilhões — um déficit de R$ 44,2 bilhões. Em contraste chocante, estados como o Maranhão, que contribuem com significativamente menos — R$ 6,6 bilhões —, recebem R$ 21,4 bilhões. A pergunta que emerge, feroz como um grito de guerra, é: por que permitimos que a riqueza gerada por nosso esforço subsidie a prosperidade alheia enquanto nosso povo sofre em calamidades evitáveis?
“Povo que não tem virtude, acaba por ser escravo,” prega nosso hino. Mas não se trata apenas de virtude; trata-se de exigir justiça e paridade. Estamos, talvez sem as correntes visíveis, mas certamente ‘’economicamente algemados’’, nos aproximando perigosamente da servidão consentida. A Revolução Farroupilha foi uma reação à exploração insuportável e ao descaso; hoje, enfrentamos uma forma diferente do mesmo problema.
Nossos irmãos farroupilhas lutaram com a convicção de que era melhor morrer livres do que viver em desonra. Agora, frente a desastres que arrancam vidas e desalojam famílias, não podemos nos dar ao luxo de ser menos corajosos. Se tivéssemos controle sobre os tributos que produzimos, se geríssemos nossos próprios recursos, quantos desastres poderiam ser mitigados? Quantas vidas seriam poupadas?
É imperativo que reavaliemos nosso pacto federativo, não apenas para corrigir desequilíbrios fiscais, mas para garantir que cada canto do Brasil possa proteger e prover para seu povo. Que a memória de nossos valentes farroupilhas inspire não apenas uma reflexão, mas uma ação resoluta.
Este é um chamado não para as armas, mas para a caneta e a voz. Para que cobremos os nossos políticos, para o voto consciente em uma urna auditável. Para cada cidadão que acredita na justiça e na dignidade. Não devemos, não podemos, deixar que nosso futuro seja menos que nossa história. Como dizia Antônio de Souza Neto, um dos líderes farroupilhas, “Nossa causa, afinal, é a causa da liberdade.” Que assim seja, hoje e sempre.
Renan Nunes





